Ode às bichas velhas: Verde Limão e a arte de sobreviver

#Crítica – O filme de Henrique Arruda recupera as memórias de uma drag queen

Por Juliana Gusman

O trabalho de Henrique Arruda chegou à plataforma Cardume Curtas com Os Últimos Românticos do Mundo (2020), uma das obras que integrou a Sessão Vitrine – Especial 10 anos, realizada em maio. O filme celebra o amor fora da norma que perdura até depois da aniquilação do planeta. Antes dos apocalipses – pandêmicos e cinematográficos – o diretor pernambucano já havia explorado os afetos queer em Verde Limão, lançado em 2018. A produção, que circulou em festivais substantivos como o de Tiradentes, o Curta Kinoforum, Marché du Film Court (França) e a Mostra Corpos Visíveis, é um dos mais recentes lançamentos do streaming. Verde Limão conta a história errática e lacunar – como bem cabe às vidas assinaladas pelos traumas inenarráveis – de uma drag queen que, velha, se rende à árdua tarefa de rememorar os próprios fantasmas. 

A personagem, interpretada comoventemente por Marcondes Lima, prepara-se para uma derradeira performance em seu camarim, santuário para as tecnologias de gênero que tem a seu dispor. É no espaço seguro de montagem e desmontagem de seu corpo desviante que o passado lhe assalta – nos assalta – para reconstituir os fragmentos de uma vida dissidente. A primeira lembrança, como não poderia deixar de ser, remete à infância da protagonista, menino afeminado que insistia em se vestir de fada. Em off – sempre em off – escutamos a foz paterna, hegemonicamente masculina, do opressor: “tira essa merda agora”, referindo-se às asas, reais e metafóricas, da criança. “Viado é a coisa mais triste do mundo, morre sozinho, velho, sem ninguém”. 

O lampejo mnemônico seguinte, festejando a melhor das teimosias, insurge contra o sofrimento. Para além dos dessabores, ressalta-se as alegrias dos sujeitos rebeldes. A personagem evoca a energia insubmissa de antigas paixões de um sábado à noite longínquo. Diz, afinal, que ninguém esquece o primeiro beijo. Beijo na boca e beijo grego, na afirmação estética e política de uma sexualidade comumente proibida nas visualidades do cinema dominante. Verde Limão – assim como faz Os Últimos Românticos do Mundo – desbrava novas fronteiras dos limites imagéticos do sexo. Em um país em que ainda se exalta – não sem razão – os menores homoafetos televisionáveis, mostrar, explicitamente, dois rapazes se amando e se tocando, sem a censura dos pudores heterocentrados, talvez tenha algo de revolucionário.  

Os dois filmes de Arruda se aproximam, também, no elogio à música. Se em Os Últimos Românticos reencena-se, por exemplo, Total Eclipse of the Heart, sucesso de Bonnie Tyler nos anos 1980, em Verde Limão o glamour brega do videoclipe é reivindicado com originalidade:  Vem se Libertar, canção escrita pelo próprio realizador em parceria com o Dj Dukokar e com o músico Diego Bezerra, lança mão de referências improváveis para compor um hino de emancipação. Para tratar da culpa religiosa que afligiu a personagem na juventude, propõe-se ungir a cena drag com o fervor do gospel, de forma a acalentar meninos que se vestem de menina, não sem certa dose de deboche. Uma coisa é certa: se há Deus, ele há de abençoar os amores possíveis. 

Na última memória, há o retorno da voz tirânica, mais uma vez desencarnada, agora de um homem qualquer, ou de qualquer homem, que interpela, humilhantemente, a personagem: “É homem ou mulher?”. “Nenhum dos dois, deixa eu passar”, responde a protagonista, afrontando o CIStema que, na verdade, lhe quer morta. A violência é sugerida pelo som seco, cortante, dos golpes da heteronormatividade. Não há imagem que dê conta da desumanização de um grito alto, porém inaudível. É neste momento que o filme, tão poético, fantástico e experimental, flerta com a narrativa referencial. Dispõe imagens e cita nomes de pessoas que não conhecemos, de quem pouco sabemos, mas cujos destinos, quase inevitáveis, podemos presumir. A protagonista retorna à cena ensanguentada, mas não se resigna. Há nela a raiva que quem insistirá em existir. 

Apesar da denúncia que sublinha a obra, reclama-se a esperança. A personagem de Lima é ovacionada, numa reverência que extrapola a diegese, que transborda para o fora de campo. É aclamada não apenas por sua arte, pelo seu canto – dubla a bonita música De Olhar pra Cima, do também pernambucano Almério – por sua performance e por sua performatividade, mas por estar viva. Verde Limão parece ser uma homenagem aos corpos queer que conseguem envelhecer com suas alianças concretas, espectrais e transformadoras. Na verdade, a bicha velha é a coisa mais linda do mundo. Ela pode até criar asas e voar.

0