Notas sobre a montagem

#Crítica – Documentário “Apuntes sobre identidad” de Felipe Camargo ensaia a colisão da identidade em torno daquilo que é a essência do cinema, a montagem.

Por Gabriel Müller Leal

Antes de começar, quero apresentar essa coluna chamada “não muito longe da praia”, nome de um antigo blog de reflexões cinematográficas que eu mantive anos atrás de forma independente. Esse nome veio (e ainda vem) do desejo de me jogar no mar do cinema e dar fortes braçadas em direção ao mar aberto de todas suas leituras rizomáticas, seus devires e derivas. Claro, sem perder de vista a praia, da qual inevitavelmente volto e finco meus pés na areia. Assim, a ideia é nadar entre o raso e o fundo que os sons e imagens podem nos levar, tentando não afogar em devaneios. Entre o raso e o fundo, entre o mar e o rio, quero oferecer aos curtas brasileiros (que será o enfoque principal) a possibilidade de desaguar em espaços mais largos. 

Notas sobre a montagem

O filme pelo qual inicio é sobre aquilo que se coloca entre as coisas, em específico, sobre a fronteira e, em consequência, sobre a identidade. “Apuntes sobre identidad” de Felipe Camargo (filme online disponível na Cardume) ensaia a colisão desses temas em torno daquilo que é a essência do cinema, a montagem.

A montagem é nas origens dos estudos cinematográficos da vanguarda soviética a força central dessa arte revolucionária. Diziga Vertov, uma das figuras fundamentais desse movimento do início do século XX, dizia que a montagem é a conclusão orgânica do que ele chamou Cine-Olho. Em resumo o que Vertov chamou Cine-Olho é o processo do fazer cinematográfico que nasce a partir dos fenômenos viventes em oposição ao cinema de ficção acorrentado à literatura e ao teatro. Camargo apresenta uma experiência cultural alheia ao que o público latino americano está acostumado: o muçulmano. Isso nos desloca e nos intriga quanto a nossa localização geográfica no início do filme, opondo-se de antemão a uma das funções clássicas da montagem, o de apresentar de forma consciente a espacialidade de seus objetos e sujeitos. 

Em um segundo momento em “Apuntes sobre identidad” conhecemos um simpático poeta ancião (uruguaio?) que nos encara sem medo e nos convida a sua casa. Nele, assim como nos demais planos, todos sem nenhum movimento de câmara, sempre são precisos e propositivos em suas composições e enquadres, ressaltando a montagem interna em que até os gatos parecem estar conscientes de sua mise en scène. A montagem interna é tudo aquilo que ocorre dentro de um plano, marcando um ritmo e um “jogo de cena” que naturalmente dialoga com a montagem externa, ou seja, o fluxo de um plano e outro. Esse domínio da montagem interna no documentário demonstra a magistralidade do diretor em convergir o caos e amplitude da realidade em uma visão artística unificada. Sergei Dvortsevoy (cineasta de origem russa) é um dos grandes mestres nesse domínio (por exemplo em Paradise, Highway e Bread Day) estando com a câmara no lugar certo e na hora certo não por sorte, mas sim por conviver por um período longo com seus personagens a ponto de internalizar suas rotinas, experienciando cenas inusitadas como no filme Paradise (1996) em que a câmara capta o momento em que uma vaca prende sua cabeça em uma lata de água1. Felipe Carmargo mostra sua vocação e potencial como diretor nesse quesito apresentando personagens de forma íntima e fluída. Isso, sem deixar de ter um manejo das informações indicando progressivamente elementos que ampliam a construção da identidade dessas pessoas, como a de um muçulmano usando chinelo havaiana das cores da bandeira do brasil, uruguaios vendo novela da globo, um argelino tomando mate uruguaio, etc. 

Porém, é em outro tipo de montagem que “Apuntes sobre identidad” parece desabrochar com maior beleza. O ritmo entre planos (montagem externa) e seus movimentos circulares, invés de lineares, enfatizando uma unidade sensorial que trabalha em torno de um mesmo centro. Esse tipo de montagem remete aos trabalhos do cineasta armênio Artavazd Pelechian (por exemplo em Begnning, Inabitants, We and our mountains e The seasons), que formula o que ele chama de montagem distancial:

“Para mim, montagem distancial abre os mistérios do movimento do universo. Eu posso sentir como tudo é feito e colocado junto; Eu posso sentir o ritmo desse movimento.”2

Artavazd Pelechian

 e seu pensamento sobre música e cinema parece ressoar no filme em questão:

“Eu não faço relação entre música e cinema. Eu relaciono o sentimento da música e o sentimento da imagem. Ou seja, não monto sons e imagens, mas o sentimento expresso em imagens e o sentimento expresso em sons”.3

Pelechian

O resultado é aquilo que apenas o cinema é capaz de fazer, relacionar imagens e sons movendo seus significantes e desvinculando-os de seus significados para torná-los sensações. E no caso de Camargo, as sensações giram em torno daquilo que seu título indica, notas sobre identidade. Admitindo em sua empreitada um caminho infindável, como bem mostra o texto do prólogo do filme.

“E como o descobrimento do outro tem vários graus, desde o outro como objeto, até o outro como sujeito, igual ao eu, mas diferente dele, bem podemos passar toda uma vida sem nunca descobrir o outro”.4

Todorov

Diminuindo o espaçamento dos blocos temáticos, ou seja, diminuindo o tempo entre o conjunto de planos que acompanham os muçulmanos de origem africana, o uruguaio ancião e os muçulmanos de origem Palestina, o filme nos coloca em um movimento de aceleração a partir da montagem, culminando para um final inevitável: a rua que marca a fronteira no Chuí entre Brasil e Uruguai. A colisão desses blocos vira samba e dissolve as fronteiras que o próprio filme delimita a partir da montagem. Fronteiras em que a globalização está constantemente atravessando e nos fazendo questionar. Aos sons da batucada e da trova do poeta gaúcho, o filme presenteia o espectador em um caldo de elementos culturais efervescentes fazendo-o se deleitar nos mistérios sobre a identidade latina e mundial. 


1 Extrato de Paradise: https://vimeo.com/27601415

2  Livre tradução.“For me, distance montage opens up the mysteries of the movement of the universe. I can feel how everything is made and put together; I can sense its rhythmic movement.” A Critical Cinema 3: Interviews with Independent Film Makers. Berkeley and Loss Angeles: University of California Press. (extraído de: https://en.wikipedia.org/wiki/Artavazd_Peleshyan em 20/04/21)

3 https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/10/17/ilustrada/9.html

4 Todorov em “A Conquista da América: A questão do Outro”

+1