Na navalha da cultura: resistência e revolução na Trilogia Brasil Profundo

#Crítica –Vento Burro (2016), Cacumbu (2018) e Maré Mansa Traiçoeira (2020), dirigidos por Daniel Paes, apostam na força revolucionária das classes populares e do próprio cinema. 

Por Juliana Gusman

Vento Burro (2016), Cacumbu (2018) e Maré Mansa Traiçoeira (2020) compõem a trilogia experimental Brasil Profundo, de Daniel Paes, e tentam explicar o que ninguém consegue entender. Para falar do país, hoje, exercitam uma contração temporal que anuncia a transformação da nossa visão de futuro, que não seria mais como era antigamente – tal qual na era das revoluções, em que se almejava a construção de um mundo em novos termos. O futuro que se apresenta, logo adiante, é inóspito. Para os pesquisadores Vera Follain (PUC-Rio) e Eduardo Miranda (Estácio de Sá), outras obras recentes do cinema brasileiro também propõem essa guinada narrativa, distópica, cujos sintomas mórbidos já se apresentam no interregno do presente – Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019) e Divino Amor (Gabriel Mascaro, 2019), por exemplo, ensaiam o mesmo esforço de imaginação política, projetando calamidades que, em verdade, já estão dadas no nosso tempo. 

Entretanto, se parte da desilusão utópica decorre, entre outros motivos, de uma mudança no nosso horizonte de expectativas, que não consegue mais se alimentar de um passado positivo e combativo, agora incapaz de oferecer lições explicativas para o que está acontecendo e para o que acontecerá, como comentam Follain e Miranda, a trilogia Brasil Profundo rascunha uma aposta teimosa e necessária nos ensinamentos da história. 

A força revolucionária do passado  dá lastro ao primeiro filme, Vento Burro. Destaca-se, nele, a centralidade do texto, em voz over, que costura imagens dispersas, mas coincidentes. Inspira-se, sobretudo, na poética e na política da arte do “Velho”, um segundo e íntimo codinome de João Lutfi, mais conhecido como Sérgio Ricardo (1932-2020), homenageado pelo diretor. Assim como na obra multifacetada deste mestre saudoso, o trabalho de Paes parece exaltar a persistência de um povo historicamente padecido que, diferentemente dos “falsos profetas” de hálito podre, sorri cheirosa e malandramente, apesar de tudo. Reivindica-se uma resistência porvir, gestada na infância, embalada pela tradição e encarnada por um menino preto (Gustavo da Silva), altivo, de queixo empinado e cabeça erguida. Vivo, apesar de tudo. 

Este primeiro filme talvez seja o de maior gesto ensaístico e, portanto, inevitavelmente lacunar. A nós, expectadores, é dada a incumbência (sempre bem-vinda, de fato) de fazer nosso próprio esforço de preenchimento das fissuras. O maior deles, talvez, seja o de desvendar identidades dos nossos inimigos de carne e osso. O caráter apenas sugestivo da obra – que dispõem fragmentos imagéticos de possíveis antagonistas – abre espaço para a construção coletiva e sintética da percepção sobre quem são os bufantes profetas que fazem circular furacões da ignorância e podridão. A grande mídia burguesa? A classe política, também orientada pelos interesses dos mais aquinhoados? Conservadores e reacionários?

Interrogações que nos fazem pensar, também, sobre quem somos o “nós” que se espera elaborar.  Vento Burro, que, assim como os outros filmes da trilogia, crava o pé no chão no ritmo do batuque e na sinergia do umbutu, parece colocar à mesa um sujeito revolucionário múltiplo, mas concretizado na força do povo pobre, preto, favelado; das crianças, dos velhos e das mulheres, quase sempre descartados nas deliberações públicas. Aposta-se na reciclagem transformativa dos corpos abjetos, tidos como desimportantes, que erguer-se-ão para fazer saltar todos os estratos superpostos que constituem a sociedade oficial.

Em Cacumbu, esperançoso e otimista, materializa-se o despertar de um levante apenas esboçado pela afirmação de um povo vigoroso em Vento Burro. Oxalá e as crianças vêm desestabilizar o tempo de trevas, nas brechas da tristeza, que às vezes, como já dizia o Velho, se demora a chegar. Entender o que é “Cacumbu”, palavra inscrita numa fita cassete encontrada pelo mesmo garoto aguerrido do primeiro filme, foi o passo inicial para o levante. Ninguém melhor que o próprio Velho para solucionar o mistério soprado pelas ondas do mar. Porém, o enigma do “Cacumbu” é desvendado não apenas pelo velho Sérgio, que recebe, em casa, a garotada periférica e curiosa de peito aberto, mas pela velha Elis, pelo velho Cazuza, pelo velho Chico e até pelo o velhíssimo Thomas Morus, que, desde 1516, com sua Utopia, sistematiza nossa luta de sonhar – essas e outras referências são pistas deixadas nas bordas da tela. Recorre-se, novamente, aos enfrentamentos do passado para poder se plantar, hoje, a poesia do futuro – roubando aí as ambições de mais um ancião, Karl Marx, que, assim como Sérgio, achava a riqueza imoral. Cacumbu, afinal de contas, é faca, machado ou serrote que já cortou demais. Na trilogia do Brasil Profundo, a cultura, então, é a arma gasta de guerrilha, caxirenguengue reafiada na arte de afrontar injustiças.

Em Maré Mansa Traiçoeira, por fim, abandona-se, parcialmente, o otimismo. O título quase engana: já fomos engolidos pelo tsunami do horror. O levante é onírico – como nos informa a personagem de Stefano Moloni, em voz over – em um país em que Deus, o único, está acima de todos, esmagando resistências. Retoma-se, ainda que brevemente, a estética, a poética e os verbos de Vento Burro, consolidando uma narrativa espiralar, presa na própria tragédia que a alimenta. Mas o povo – a mulher, a criança, o velho – é acintoso, insiste em desafiar de frente a tirania. Novamente, a produção artística de outros tempos é empunhada feito cacumbu: Cartomante, de Ivan Lins e eternizada por Elis Regina (eis a nossa profeta) durante os anos de chumbo da ditadura militar, é evocada para prenunciar novos embates, agora na voz potente e multiplicante de uma mulher negra, personagem de Melissa Arievo. Nada mais justo. Até a câmera na mão, dançante, se rende ao embalo do seu canto, ao arrepio do seu grito.  

O próprio cinema, em Mare Mansa Traiçoeira, também é amolado para perfurar a carne apodrecida dos opressores: Eisenstein, Nelson, Leon, Glauber, Sganzerla, Guzmán e Petra são alguns dos guerrilheiros chamados para esse combate discursivo. Numa sala de projeção, percebemos, através da contemplação do personagem de Moloni, a capacidade do cinema de mobilizar afetos, munição para a edificação de um Brasil auspicioso. Mas nada de happy endings, como manda o bom verniz hollywoodiano. Termina-se a trilogia com raiva e vontade de sangue. “Vocês combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”, esbravejam os protagonistas, ao que não se pode responder com amabilidades. Afinal, como nos lembra Angela Davis, o ódio – contra ventos burros – também é um afeto revolucionário. É preciso se indignar contra aqueles que querem nos matar. Não temos nada a perder; e temos um mundo a ganhar. 

A trilogia do Brasil Profundo é uma produção da Iracema Filmes, e está disponível na plataforma Cardume Curtas

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