Inconfissões apesar da morte

#Crítica – O premiado documentário de Ana Galizia recupera a história de Luiz Roberto Galizia através da ressignificação das imagens produzidas pelo próprio arista.

Por Juliana Gusman

Em entrevista ao programa Provocações, em 2006, Maria Alice Vergueiro, a grande dama do teatro underground brasileiro, sub-star então alçada a ídolo juvenil após o sucesso do vídeo Tapa na Pantera no YouTube, comenta que foi Luiz Roberto Galizia quem a fez descobrir, na sua arte, a economia dos gestos e um teatro muito próximo do cinema. Anos depois, em Inconfissões (2018), caberia ao cinema redescobrir Luiz Roberto Galizia. Um dos fundadores do Teatro do Ornitorrinco, junto com Maria Alice e Cacá Rosset, Galizia é resgatado dos porões do esquecimento público e familiar – onde não raro são enclausurados, respectivamente, os artistas que negam os holofotes da telenovela e as pessoas LGBTQIA+ – por Ana Galizia, sua sobrinha. O documentário escova a contrapelo a história de um tio que ela nunca conheceu, morto pela Aids em 1985. Inconfissões, que circulou nos principais festivais de cinema do Brasil, entre eles o É tudo Verdade – no qual recebeu menção honrosa na mostra competitiva de curtas em 2018 – é um dos destaques da Plataforma Cardume.

Retumbando, em alguma medida, uma forte tradição nacional de documentários pessoais, dedicados a empreender uma busca, a diretora manipula um material de arquivo inarredavelmente lacunar, como sempre cabe a quaisquer esforços de reconstituição da memória. Em verdade, o acervo articulado para edificar, ainda que precariamente, a narrativa fissurada da vida de Luiz conta com fotografias e filmes em Super-8 mm produzidos pelo próprio personagem, que não se eximia de registrar, em abundância, afetos e amenidades. De certa forma, tenta-se restaurar não apenas a sua história, mas seus relatos de si através da imagem. 

O trabalho do som permite presentificar os rastros dessas autofabulações midiáticas, conferindo textura e vivacidade às inscrições do passado.  Apesar de tentador, evita-se a voz over para garantir a continuidade e a coerência da obra. Somente ao final de Inconfissões escutamos a realizadora, que revela, autorreflexivamente, os motivos e motores do seu filme. As leituras de cartas escritas e recebidas por Luiz – intercambiadas com famílias, amigos, possíveis amantes – são praticamente as únicas costuras verbais para além das sínteses possibilitadas pela montagem, embora nem sempre o que se vê corresponda com aquilo que se diz, para evidenciar contradições. De qualquer forma, é bonito pensar que a carta, como gênero de escrita, foi uma importante forma de expressão de sujeitos apartados dos meios de produção de discursos, como as mulheres, configurando redes de compartilhamento e identificação. Assim parece ser também, como mostra Inconfissões, com os grupos que desafiavam expectativas e normas dos usos da sexualidade. 

Luiz era gay, e seus desejos são positivamente afirmados no curta de Ana. Há uma subversão nas censuras comumente conferidas às topografias dos corpos, permitindo ao cinema encarar de frente práticas e afeições invisibilizadas. Para além desse desafio, Ana tem que falar da Aids. Lembrei-me do clássico Silverlake Life, de Peter Friedman e Tom Joslin, lançado em 1993, no ano em que Ana nasceu. O documentário autobiográfico, podemos dizer, aborda a convivência de Joslin e seu companheiro, Mark Massi, com a doença. É uma obra sobre a radicalidade de uma morte que chega aos poucos, e que chega diante das câmeras. Talvez mais chocante do que ver o corpo inerte de Joslin, morto durante a feitura do filme em julho de 1990, é observar as margens atormentadas de um enquadramento quase impossível – o peso da tragédia sobrecarregava o peso da filmadora, e Massi não conseguia parar de tremer diante do horror.  

Mesmo tratando da Aids, Inconfissões não é um filme sobre morte, mas um filme apesar da morte. Ela aparece discreta, cifrada, por exemplo, através de menções, nas correspondências trocadas, de manchas no corpo que insistem em aparecer. Quando a diretora relata ter questionado o pai sobre morte do tio, pronuncia-se, pela primeira vez, o nome da enfermidade, que, no entanto, é apenas o triste ponto final de uma vida assinalada pela arte, pela criação, pela movimentação política e pelo amor livre e destemido. Afinal, as próprias imagens feitas por Galizia são de alegria, de tesão e de uma existência inquieta e disruptiva. Se elas estavam apartadas das lembranças da família, como comenta a diretora, o documentário possibilita que Luiz e sua história voltem ao lar.

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